Sargento Daniel Oliveira Batista lembra dificuldades passadas e conta sobre como foi atuar em um dos maiores desastres ambientais do Brasil, que completou 5 anos nesta quinta-feira (5).

Há 5 anos a barragem de Fundão se rompia no município de Mariana, matando 19 pessoas e resultando em destruição de casas, além da devastação do Rio Doce, por conta do mar de lama. Entre diversas equipes que realizaram buscas no local da tragédia estavam militares do Corpo de Bombeiros de Uberaba.

Em 2015 foram enviados sete bombeiros de Uberaba para a cidade, além de um cão farejador. O G1 conversou com um dos integrantes do 8º Batalhão do Corpo de Bombeiros. Ele contou sobre a experiência de atuar no salvamento em um dos maiores desastres ambientais do Brasil.

O sargento Daniel Oliveira Batista lembra ainda sobre a emoção vivida na época da tragédia, mesmo cinco anos depois.

“Já tinha atuado em ocorrência com várias vítimas, de grande incêndio, mas ocorrência mesma de mobilização nacional foi a primeira em que eu atuei. Na época tinha 12 anos de profissão, mas mesmo assim foi a primeira [ocorrência de grande escala] que eu atuei”, disse.

Batista foi único integrante da equipe do Triângulo Mineiro que ficou atuando na região da barragem de Bento Rodrigues, segundo o sargento, a 'zona quente' do ocorrido.

Sargento Daniel Batista de capacete vermelho, ao centro, durante trabalho na lama em Mariana — Foto: Daniel Batista/Arquivo Pessoal

Sargento Daniel Batista de capacete vermelho, ao centro, durante trabalho na lama em Mariana — Foto: Daniel Batista/Arquivo Pessoal

Dificuldades

Daniel contava com 12 anos de experiência no Corpo de Bombeiros, mas por conta da situação atípica e nova para ele, algumas dificuldades foram passadas no local.

Entre as lembranças está o dia que ficou seis horas preso na lama, quando tinha se separado por alguns minutos do grupo de buscas. “Eu vi uma grande quantidade de urubus e pensei que tinha algum corpo ali. Então eu fui nesse local verificar, sinalizei para a minha dupla, que era de outra unidade e eu nunca tinha trabalhado com ele, então não tinha uma familiaridade. Quando cheguei no local na verdade era uma vaca".

“Então foi um pouco de falta de experiência minha, eu quis ‘atalhar’, reduzir o caminho na hora de voltar, e eu fui passar por um caminho mais curto. Assim, cai de uma árvore e fiquei preso lá”, completou.

Por conta da região estar alagada, o sargento acabou ficando preso até o pescoço no local. Segundo o relato, ele ficou preso por volta das 10h, mas só foi socorrido por volta das 16h, quando a equipe de buscas percebeu que ele havia se perdido.

“Por conta da lama, eles não se familiarizaram com os locais. Então eles entraram em lugares diferentes pensando que era ali que eu tinha ficado e não me achavam. Depois de um tempo repetiram as buscas e ouviram um apito, foram de imediato e começaram a me puxar, mas não conseguiram. Então tiveram que tirar a lama para me retirar do local”, lembrou.

Momento de tensão

No momento em que ficou preso e longe de todos, Daniel relata que chegou a pensar que ninguém o encontraria. “No começo pensava que eles iriam me achar rapidamente. Passou duas horas e comecei a apitar. Eu apitava para tentar chamar a atenção, mas eles não conseguiam me ver. Então você começa a pensar ‘será que eles estão me procurando mesmo? Será que eles sabem que estou perdido?”.

“O helicóptero passava por mim e eu tentava sinalizar, mas ele passava alto demais, então ninguém conseguia me ver. De tempo em tempo eu também apitava, pois eu sabia que se eles não me achassem nesse dia a situação iria complicar", lembrou.

Experiência para outros casos

O sargento ainda contou que a ação realizada pelos bombeiros no rompimento da barragem de Mariana acabou ajudando anos depois no resgate da barragem de Brumadinho, do qual ele também participou.

“A gente desenvolveu diversas técnicas lá. A expertise que usamos em Brumadinho, por exemplo, foi por conta de Mariana, a gente desenvolveu tudo lá. Muitas técnicas, das operações, vieram de lá. Aquilo que aconteceu comigo nunca aconteceria em Brumadinho”, explicou.

Outro fator que foi alterado em Brumadinho foi em relação ao atendimento médico no local. Como Daniel ficou os 10 primeiros dias atuando na operação, ainda não estavam presentes atendimento psicológico, questão que já fazia parte do acampamento de Brumadinho.

“No acampamento em que estávamos não tinha a questão psicológica, pelo menos nos primeiros dias. Mas quando retornei para Uberaba tive o acompanhamento psicológico. Já em Brumadinho teve um hospital de campanha, com psicólogos, médicos, muito bem amparado”, comentou o sargento.

Ajuda animal

Cão Luck em seu descanso em Uberaba  — Foto: Corpo de Bombeiros/Divulgação

Cão Luck em seu descanso em Uberaba — Foto: Corpo de Bombeiros/Divulgação


Além das sete pessoas, um dos membros da equipe do Pelotão de Buscas, Resgate e Salvamento com Cães (GBRESC) do 8º Batalhão de Bombeiros Militar (8º BBM) era o cão Luck, que foi enviado para Mariana para ajudar nas buscas.

Luck trabalhou por dez anos com os militares do pelotão, após ter sido doado à corporação em 2008. Em 2009, ele foi integrado ao canil, iniciando, assim, as atividades de busca, resgate e salvamento com cães. Ele participou de diversas buscas, entre elas, as do rompimento da barragem de Mariana.

Por conta de sua importância dentro do Batalhão, o cão contou com uma homenagem pelos militares no dia do óbito . Com informações do G1